Septuaginta primeira traducao final
Traduções da Bíblia ·
Septuaginta: Origem, Tradução e Importância para o Cristianismo
A Septuaginta é a tradução grega do Antigo Testamento produzida em Alexandria a partir do século III a.C., a primeira versão extensa das Escrituras hebraicas num idioma diferente do original. Nasceu para atender a uma comunidade judaica que já não lia hebraico com fluência, e se tornaria, séculos depois, o texto que praticamente todos os autores do Novo Testamento citaram ao invés do original hebraico.
A tradição por trás do nome carrega mais lenda que fato verificável, e separar as duas coisas já revela algo sobre como a Antiguidade construía autoridade textual. A Carta de Aristeias, texto pseudepigráfico do século II a.C., atribui a tradução a setenta e dois sábios, seis de cada uma das doze tribos de Israel, enviados a pedido do rei Ptolomeu II Filadelfo. Jennifer Dines, em The Septuagint, observa que a comunidade acadêmica aceita o núcleo histórico do relato, tradução feita em Alexandria por judeus fluentes em grego, mas rejeita como lenda posterior a afirmação de que os setenta e dois trabalharam isoladamente e produziram versões idênticas, milagre que a própria carta usa para legitimar a autoridade divina da tradução.
O que é a Septuaginta e de onde vem seu nome
O nome Septuaginta deriva do latim septuaginta, setenta, número que a tradição posterior arredondou a partir dos setenta e dois tradutores da Carta de Aristeias. A abreviação LXX usa o algarismo romano correspondente. Esses detalhes numéricos não são curiosidade vazia, eles revelam como uma tradição de origem incerta ganhou peso de autoridade ao longo dos séculos seguintes, até se tornar sinônimo de texto bíblico legítimo para o mundo judaico helenizado e, depois, para toda a cristandade primitiva.
O escopo real da obra é maior do que o nome sugere. Não é uma tradução única e uniforme, é coleção de traduções produzidas em momentos e por mãos diferentes ao longo de aproximadamente dois séculos. Inclui o Pentateuco, os livros históricos, os proféticos, os poéticos, e um conjunto de obras que o judaísmo rabínico posterior excluiria do cânon hebraico, os deuterocanônicos, que sobreviveriam no cânon cristão ocidental exatamente porque a Igreja primitiva herdou a Septuaginta como sua Bíblia de referência.
Alexandria e o contexto que exigiu a tradução
Alexandria, fundada por Alexandre Magno e transformada por Ptolomeu I e seus sucessores em centro intelectual do Mediterrâneo, abrigava a maior concentração de judeus fora da Palestina no século III a.C. Essa comunidade vivia em ambiente linguístico grego havia gerações, e para a maioria de seus membros o hebraico havia se tornado língua de rito, não de compreensão cotidiana. A tradução nasceu de necessidade prática, não de projeto teológico grandioso planejado de antemão.
O helenismo que Alexandre espalhou pelo Mediterrâneo oriental não impôs apenas uma língua, impôs categorias de pensamento. Filósofos estoicos e platônicos debatiam em espaços públicos que judeus alexandrinos frequentavam, e a tradução das Escrituras para o grego colocou o texto hebraico em diálogo direto, e às vezes em tensão, com esse universo conceitual. Isso explica por que certos termos da Septuaginta carregam nuance filosófica ausente no hebraico original, os tradutores não apenas verteram palavras, negociaram significado entre dois universos culturais.
Como o processo de tradução realmente aconteceu
Descartada a lenda dos setenta e dois trabalhando isoladamente, o que resta é reconstrução baseada em evidência interna do próprio texto grego. O Pentateuco recebeu tratamento mais cuidadoso e uniforme, sinal de que foi produzido num único período por tradutores operando sob critério compartilhado. Os livros proféticos e os Escritos mostram variação de estilo e de técnica de tradução muito maior, indicando produção em fases distintas, possivelmente por grupos sem contato direto entre si, ao longo de gerações.
Emanuel Tov, autoridade em crítica textual do Antigo Testamento, documenta que os tradutores oscilavam entre fidelidade literal ao hebraico e adaptação livre ao grego idiomático, escolha que variava livro a livro e não seguia regra fixa. Em alguns trechos a tradução segue a ordem das palavras hebraicas quase mecanicamente, produzindo grego estranho aos ouvidos nativos. Em outros, os tradutores reformulam frases inteiras para soar natural em grego, sacrificando literalidade em favor de clareza. Essa inconsistência interna é, paradoxalmente, evidência de autenticidade histórica, um único falsificador produzindo tudo de uma vez tenderia à uniformidade que o texto real não tem.
Por que a Septuaginta e o texto hebraico posterior divergem
Aqui está o ponto que a maioria dos resumos populares simplifica demais. A Septuaginta não é tradução imprecisa de um hebraico que já existia fixo e estável. Ela traduz manuscritos hebraicos anteriores ao processo de padronização que os massoretas completariam apenas entre os séculos VI e X d.C., mais de mil anos depois. Isso significa que, em certas passagens, divergência entre a Septuaginta e o Texto Massorético não indica erro de tradução, indica que os tradutores tinham diante de si uma tradição textual hebraica diferente daquela que sobreviveria como padrão.
Os Manuscritos do Mar Morto, descobertos em Qumran a partir de 1947, confirmaram isso de forma concreta. Alguns fragmentos hebraicos encontrados nas cavernas do deserto da Judeia se alinham mais com a Septuaginta grega do que com o Texto Massorético que se tornaria padrão séculos depois. Isso reposicionou a Septuaginta na crítica textual contemporânea, de tradução secundária e suspeita para testemunha textual independente e, em certos casos, mais antiga que o próprio texto hebraico que a tradição rabínica preservou.
A adoção da Septuaginta pelo cristianismo primitivo
Quando os apóstolos e os primeiros escritores cristãos citam o Antigo Testamento, a esmagadora maioria das citações vem da Septuaginta, não de tradução direta do hebraico. Isso não é escolha teológica deliberada contra o texto original, é reflexo prático de que o grego era a língua franca do mundo mediterrâneo do século I, e a Septuaginta já circulava havia gerações como texto de referência das comunidades judaicas da diáspora, o ambiente onde o cristianismo primeiro se espalhou para além da Judeia.
Essa escolha teve consequência teológica duradoura. Termos gregos que a Septuaginta já havia consagrado para conceitos hebraicos, como a tradução de hesed por eleos, misericórdia, ou de ruach por pneuma, espírito, tornaram-se o vocabulário padrão que os autores do Novo Testamento herdaram e desenvolveram. Ler o Novo Testamento sem reconhecer essa camada de vocabulário pré-formatado pela Septuaginta é perder uma parte substancial de como os primeiros cristãos pensavam teologicamente em grego.
Deuterocanônicos e a divisão de cânon que existe até hoje
A Septuaginta incluía livros como Tobias, Judite, Sabedoria de Salomão, Eclesiástico, Baruque e os dois livros dos Macabeus, nenhum deles preservado no cânon hebraico que o judaísmo rabínico consolidaria após a destruição do Templo em 70 d.C. Quando a Igreja cristã primitiva herdou a Septuaginta como sua Bíblia de uso corrente, herdou também esses livros, que ficariam conhecidos na tradição latina posterior como deuterocanônicos.
Essa é a raiz histórica direta da diferença de cânon que separa bíblias católicas e ortodoxas de bíblias protestantes até hoje. A Reforma Protestante do século XVI, ao priorizar o cânon hebraico sobre a tradição grega da Septuaginta, removeu os deuterocanônicos que a Igreja ocidental havia usado por mais de mil anos. Católicos e ortodoxos mantiveram a herança direta da Septuaginta nesse ponto específico, o que explica por que abrir uma Bíblia católica e uma Bíblia protestante lado a lado revela sumários de conteúdo diferentes no Antigo Testamento.
Manuscritos que preservaram o texto até hoje
Nenhum manuscrito original da Septuaginta sobreviveu. O que os estudiosos têm são cópias posteriores, sendo as mais importantes o Códice Vaticanus e o Códice Sinaiticus, ambos do século IV d.C., e o Códice Alexandrinus, do século V. Henry Barclay Swete, em sua edição manual do texto grego publicada por Cambridge entre 1887 e 1894, usou justamente o Códice Vaticanus como base textual principal, precedente metodológico que editores posteriores continuaram seguindo.
Fragmentos ainda mais antigos, alguns datados do século II a.C. ao IV d.C., apareceram entre os papiros descobertos em Óxirrinco, no Egito, e confirmam a antiguidade real da tradição textual muito antes dos grandes códices do século IV. Reconstruir o texto grego original a partir dessa massa de manuscritos divergentes é trabalho de crítica textual contínuo, que a edição de Göttingen, projeto acadêmico em andamento desde o início do século XX, ainda hoje refina livro por livro.
Conclusão
A Septuaginta não é nota de rodapé histórica sobre uma tradução antiga. É o elo textual que conecta o Antigo Testamento hebraico ao vocabulário teológico do Novo Testamento, e a chave que explica por que diferentes tradições cristãs têm cânones diferentes até os dias de hoje. Compreender sua origem em Alexandria, seu processo de tradução heterogêneo ao longo de dois séculos, e sua adoção pelo cristianismo primitivo muda a leitura de qualquer citação do Antigo Testamento que aparece nos Evangelhos ou nas cartas apostólicas.
Para quem quer entender como Jerônimo, séculos depois, decidiu voltar ao hebraico em vez de seguir a autoridade estabelecida da Septuaginta ao produzir a Vulgata latina, o artigo sobre a Vulgata e a tradução latina de Jerônimo desenvolve essa segunda camada da história da transmissão bíblica.
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