Beelzebu no Segundo Templo: de Deus cananeu a demônio bíblico
Intermediário · Palavras Bíblicas ·
Beelzebu é uma figura demoníaca presente em tradições judaicas do período do Segundo Templo, derivada da divindade cananeia Baal-zebub e reinterpretada no judaísmo e no cristianismo primitivo como príncipe dos demônios. O nome original, que significa "senhor das moscas" ou possivelmente "senhor da morada", passou por transformações significativas desde sua origem no Levante cananeu até sua aparição nos Evangelhos como centro de uma acusação contra Jesus.
Nenhuma divindade cananeia percorreu um caminho tão bem documentado quanto Baal-zebub: de deus de oráculos venerado em Ecrom, mencionado com desprezo em 2 Reis 1, a príncipe dos demônios invocado pelos fariseus para desacreditar os exorcismos de Jesus. Esse percurso de aproximadamente oito séculos atravessa o exílio babilônico, a demonologia do período intertestamentário e a cristologia dos Evangelhos sinóticos. Entender esse caminho é entender por que a acusação dos fariseus em Mateus 12 carregava o peso que carregava para qualquer ouvinte judaico do século I.
Este artigo examina Beelzebu nas quatro camadas que definem sua trajetória: a origem filológica e religiosa na Canaã, a transformação na demonologia judaica do Segundo Templo, a presença nos Evangelhos e sua conexão com a blasfêmia contra o Espírito Santo, e a interpretação patrística que sistematizou a figura no pensamento cristão.
Quem é Beelzebu e qual é sua origem cananeia
A filologia semítica identifica Beelzebu como variante do nome cananeu Baal-zebub, composto de dois elementos: Baal, título que significa "senhor" e designava divindades locais em toda a região do Levante, e zebub ou zebul, termos que geraram longo debate acadêmico. A forma zebub significa "moscas" em hebraico; a forma zebul, que aparece em alguns textos, significa "morada" ou "exaltado". A questão de qual era o nome original não é trivial: N.T. Wright, em The New Testament and the People of God, argumenta que zebub pode ser uma alteração deliberada de zebul por autores judaicos, que modificaram o nome para transformar "senhor exaltado" em "senhor das moscas" — uma reductio ad absurdum que expressava desprezo pela divindade estrangeira.
A religião cananeia era politeísta, com múltiplos baals cada um associado a diferentes localidades e funções. Baal-zebub era especificamente venerado em Ecrom, cidade filisteia mencionada em 2 Reis 1:2-3, onde o rei Acazias de Israel enviou mensageiros para consultar esse deus após sofrer uma queda. O profeta Elias interceptou os mensageiros com uma mensagem que o narrador bíblico carregou de ironia: "Não há Deus em Israel para que você vá consultar Baal-zebub, o deus de Ecrom?" A passagem estabelece o padrão que permaneceria: Baal-zebub é o deus dos inimigos de Israel, cujo culto é incompatível com a lealdade ao Senhor.
O nome Baal-zebub e seu significado etimológico
John J. Collins, em The Apocalyptic Imagination, documenta que a variação entre zebub e zebul nos manuscritos antigos reflete provavelmente um processo consciente de depreciação. A tradição ugarítica, descoberta nas tábuas de Ras Shamra na Síria, usa zebul como epíteto honorífico para Baal: "Príncipe Baal" ou "Senhor da Terra". Que autores bíblicos teriam alterado zebul para zebub é uma hipótese academicamente sólida e paralela a outras substituições textuais deliberadas no Antigo Testamento, como a troca de Baal por Bosheth ("vergonha") em nomes de personagens israelitas que originalmente continham o título baalita.
Conexões com o vocabulário acadiano e egípcio sugerem que o título original designava uma divindade com autoridade sobre um domínio específico, possivelmente o submundo ou o ar. Divindades associadas a moscas não eram raras no Oriente Próximo antigo: moscas eram vistas como portadoras de doença e morte, e uma divindade capaz de controlá-las tinha poder sobre pragas. Seja qual for a etimologia original, o que importa para o intérprete bíblico é o resultado: nos textos judaicos do Segundo Templo e nos Evangelhos, o nome carregava conotações inequivocamente demoníacas.
Beelzebu como figura da tradição cananeia
Ecrom estava situada na fronteira entre Israel e o território filisteu, na planície de Sefela. Sua posição geográfica a tornava um ponto de contato cultural entre tradições israelita e filisteia, e o santuário de Baal-zebub era aparentemente suficientemente famoso para atrair consultas de reis israelitas, como mostra a narrativa de Acazias. Annette Yoshiko Reed, em Demons, Gods, and the Sacred, observa que a acusação implícita na passagem de 2 Reis não é apenas religiosa mas política: consultar Baal-zebub em Ecrom era trair a identidade nacional de Israel tanto quanto a religiosa.
A função oracular e terapêutica de Baal-zebub no contexto cananeu é relevante para entender a ironia da acusação dos fariseus em Mateus 12. Jesus curava e expulsava demônios — precisamente as funções atribuídas a Baal-zebub em Ecrom. Que os fariseus escolhessem exatamente esse nome para acusar Jesus não foi aleatório: era a divindade estrangeira por excelência associada a poderes de cura que se opunham à lealdade ao Deus de Israel. A acusação usava a memória cultural judaica de 2 Reis com precisão calculada.
A transição de divindade a entidade demoníaca
O exílio babilônico (586-539 a.C.) foi o catalisador desta transformação. Antes do exílio, o monoteísmo israelita convivia com formas populares de sincretismo; depois, a experiência do exílio produziu uma intensificação da identidade monoteísta e uma rejeição mais rigorosa das divindades estrangeiras. Não que essas divindades passassem a ser vistas como inexistentes: elas continuavam reais, mas foram reclassificadas. O que antes era "outro deus" tornou-se "espírito maligno". Baal-zebub, nesse processo, não foi simplesmente descartado como ficção; foi reinterpretado como força real de oposição ao Deus de Israel — o que o tornava mais perigoso, não menos.
Esse padrão de demonização de divindades estrangeiras não foi invenção judaica. Collins documenta paralelos em textos persas zoroastristas, onde divindades de culturas rivais eram reinterpretadas como daivas, espíritos malignos opostos ao deus supremo Ahura Mazda. A influência persa sobre o judaísmo do período pós-exílico é um dado histórico estabelecido, e o desenvolvimento da demonologia judaica acompanhou o desenvolvimento teológico do monoteísmo mais rigoroso que o exílio havia produzido.
Beelzebu no judaísmo do Segundo Templo
O período do Segundo Templo (516 a.C. a 70 d.C.) foi marcado por crescente interesse em demônios, espíritos malignos e hierarquias espirituais, refletindo influências persas, helenísticas e egípcias sobre a religião judaica. A literatura intertestamentária produzida nesse período desenvolve uma demonologia complexa que o Novo Testamento pressupõe sem explicar — porque seu primeiro público a conhecia. Entender o que um ouvinte judaico do século I entendia por Beelzebu exige conhecer essa literatura.
Fontes intertestamentárias que mencionam Beelzebu
O Testamento de Salomão, texto pseudepígrafo datado provavelmente entre o século I e o III d.C. mas refletindo tradições mais antigas, é a fonte intertestamentária que menciona Beelzebu de forma mais explícita. No texto, o rei Salomão invoca e interroga Beelzebu, que se identifica como "o primeiro dos anjos" que caiu do céu e que habita no pôr do sol. A narrativa descreve Beelzebu como capaz de causar destruição através de tiranos, excitar o desejo e provocar guerras. Essa caracterização mostra como o período intertestamentário havia transformado Baal-zebub de divindade oracular em agente de desordem moral e política.
Os Manuscritos do Mar Morto, descobertos em Qumran entre 1947 e 1956, não mencionam Beelzebu nominalmente, mas desenvolvem uma demonologia baseada em Belial como principal adversário espiritual. Collins observa que Belial nos textos de Qumran funciona como um equivalente funcional de Beelzebu: príncipe das trevas que comanda uma horda de espíritos malignos contra os "filhos da luz". A pergunta de se Belial e Beelzebu eram entidades distintas ou nomes diferentes para a mesma figura é debatida academicamente; o que importa para a leitura dos Evangelhos é que o conceito de um "príncipe dos demônios" com autoridade sobre espíritos malignos era estabelecido no judaísmo do Segundo Templo.
O papel de Beelzebu em textos judaicos pós-exílicos
O 1 Enoque, texto composto entre os séculos III a.C. e I d.C. em seções distintas, desenvolve a narrativa dos "Vigilantes", anjos que desceram para se unir a mulheres humanas e cujos descendentes gigantes tornaram-se espíritos malignos após morrer. Essa narrativa, baseada em Gênesis 6:1-4, forneceu a etiologia mais influente para a existência de demônios no judaísmo do Segundo Templo. Beelzebu não aparece nominalmente em 1 Enoque, mas a estrutura hierárquica de demônios que o texto estabelece é exatamente o contexto que os Evangelhos pressupõem ao chamar Beelzebu de "príncipe dos demônios".
Como o judaísmo do Segundo Templo entendeu nomes demoníacos
A demonologia do Segundo Templo não era um sistema fixo e uniforme. Diferentes textos desenvolveram hierarquias distintas, com diferentes nomes ocupando o topo: Belial em Qumran, Semyaza e Azazel em 1 Enoque, Beelzebu no Testamento de Salomão, Asmodeus no livro de Tobias. O que havia de consistente era a estrutura: um adversário principal com demônios subordinados, opostos ao Deus de Israel e às suas criaturas humanas. Nomes eram mais do que rótulos — carregavam história, função e autoridade específicas que o exorcista precisava conhecer para expulsar o espírito.
Essa lógica explica por que o ministério de Jesus causava o impacto que causava. Quando os Evangelhos descrevem demônios reconhecendo Jesus antes de ele falar (Mc 1:24: "Sei quem tu és: o Santo de Deus"), estão narrando dentro de uma cosmovisão onde nomes e identidades espirituais tinham peso real. A acusação dos fariseus de que Jesus operava pelo poder de Beelzebu era, dentro dessa cosmovisão, a afirmação de que Jesus estava usando a autoridade do príncipe dos demônios em vez da autoridade de Deus.
A presença de Beelzebu no Novo Testamento
Beelzebu aparece nos Evangelhos em três passagens paralelas: Mateus 12:22-32, Marcos 3:22-30 e Lucas 11:14-23. Em todas, o contexto é idêntico: Jesus realiza um exorcismo, e os fariseus ou escribas atribuem o feito ao poder de Beelzebu. A formulação mais explícita está em Marcos 3:22: "os escribas que desceram de Jerusalém diziam que ele estava possuído por Beelzebu, e que era pelo príncipe dos demônios que ele expulsava os demônios." A especificação de que os escribas "desceram de Jerusalém" não é detalhe geográfico neutro: indica que a acusação vinha da liderança religiosa central, não de observadores periféricos.
Ocorrências de Beelzebu nos Evangelhos
A resposta de Jesus à acusação em Mateus 12:25-29 é um argumento de lógica antes de ser um argumento teológico: "Todo reino dividido contra si mesmo vai à ruína, e toda cidade ou casa dividida contra si mesma não subsistirá." Se Satanás expulsa Satanás, seu reino está em colapso — e nenhum exorcista que operasse pelo poder do adversário teria interesse em expulsar seus próprios agentes. O argumento pressupõe a demonologia do Segundo Templo como contexto compartilhado: os acusadores e o acusado concordam que existe um príncipe dos demônios com subordinados que obedecem a sua autoridade. O que Jesus disputa é de qual autoridade ele opera, não se a estrutura existe.
Joel B. Green, em seu comentário ao Evangelho de Mateus, destaca que a pergunta "pelo poder de quem operam seus discípulos?" em Mateus 12:27 é uma virada retórica decisiva. Jesus inverte o argumento: se exorcistas judeus comuns expulsam demônios, por qual poder o fazem? A acusação de Beelzebu, aplicada a Jesus, se aplicaria igualmente a qualquer exorcista da época. A resposta esperada dos acusadores seria "pelo Espírito de Deus" — e Jesus usa essa resposta implícita para estabelecer que seu próprio ministério opera pelo mesmo Espírito.
A relação entre Beelzebu e a blasfêmia contra o Espírito Santo
A conexão entre Beelzebu e a blasfêmia contra o Espírito Santo é estrutural, não acidental. A declaração de Jesus sobre o pecado imperdoável (Mt 12:31-32, Mc 3:28-30) vem imediatamente depois de sua refutação da acusação de Beelzebu. O marcador de Marcos é explícito: "Ele dizia isso porque diziam que ele tinha espírito imundo" (Mc 3:30). A blasfêmia contra o Espírito Santo não é uma categoria abstrata definida independentemente; é a denominação que Jesus dá especificamente ao ato que os escribas acabaram de praticar: atribuir a obra do Espírito de Deus ao poder de Beelzebu, o príncipe dos demônios. Para uma análise do termo grego que descreve essa blasfêmia, o artigo sobre blasphemia no grego bíblico examina as nuances lexicais em detalhe.
O sentido teológico do termo no cristianismo primitivo
Para os primeiros cristãos, a rejeição da acusação de Beelzebu era cristologicamente essencial. Se Jesus operava pelo poder do príncipe dos demônios, sua autoridade para perdoar pecados e inaugurar o reino de Deus era nula. Se operava pelo Espírito de Deus, então "o reino de Deus chegou a vocês" (Mt 12:28) — e os exorcismos eram evidência escatológica, não apenas feitos terapêuticos. Beelzebu, no contexto cristão, tornou-se o nome que sintetizava todo o sistema de oposição ao reino: invocar Beelzebu era rejeitar o Espírito que inaugurava esse reino.
Comparação entre Beelzebu e outros nomes demoníacos bíblicos
A demonologia bíblica e intertestamentária não opera com um único adversário mas com uma hierarquia de figuras com funções distintas. Compreender onde Beelzebu se situa nessa hierarquia exige distingui-lo de outros nomes que aparecem nas mesmas fontes, especialmente Satanás, Belial e Azazel, cada um com história textual própria.
Beelzebu versus Satanás e outros antagonistas espirituais
Satanás no Antigo Testamento não é ainda o adversário cósmico do Novo: em Jó 1-2 e Zacarias 3, hasatan é "o acusador", uma função jurídica no tribunal celestial. A transformação de Satanás em antagonista cósmico ocorre durante o período intertestamentário, paralela à demonização de Beelzebu. Que os dois nomes eventualmente se tornassem intercambiáveis nos Evangelhos — onde Jesus usa Satanás e Beelzebu para descrever a mesma entidade em Mateus 12:26 ("se Satanás expulsa Satanás...") — reflete essa convergência histórica, não uma identificação original.
Belial aparece em 2 Coríntios 6:15 como o adversário de Cristo, e nos textos de Qumran como príncipe das trevas. Azazel, mencionado em Levítico 16 como destinatário do bode expiatório no Dia da Expiação, é transformado em figura demoníaca em 1 Enoque, onde lidera os Vigilantes caídos. A tendência da demonologia do Segundo Templo era identificar todas essas figuras umas com as outras dependendo do texto e da tradição: Belial = Satanás em alguns contextos, Azazel = Satanás em outros. Beelzebu segue o mesmo padrão de identificação fluida. O ponto que merece atenção exegética é que os Evangelhos não exigem que o leitor resolva essas identificações; o que importa narrativamente é que Beelzebu era reconhecido como a mais alta autoridade demoníaca.
Como nomes demoníacos se relacionam no imaginário religioso
A multiplicidade de nomes para o adversário espiritual não é inconsistência teológica; é reflexo de um imaginário religioso que se desenvolveu ao longo de séculos, absorvendo influências de culturas distintas. O monoteísmo judaico não precisava de um único nome para o adversário: precisava de um sistema que explicasse a origem do mal, sua organização e sua relação com o sofrimento humano. Beelzebu, Belial, Satanás e Azazel foram os nomes que diferentes tradições usaram para preencher essa necessidade, e o Novo Testamento herdou esse vocabulário sem sistematizá-lo em uma demonologia dogmática. Paulo usa Satanás com frequência; os Evangelhos usam tanto Satanás quanto Beelzebu; Apocalipse usa o "dragão" e "antiga serpente". A variedade é intencional: o adversário é real, mas suas designações são culturalmente condicionadas.
A função de Beelzebu na lista de adversários espirituais
Nos Evangelhos, Beelzebu ocupa especificamente a posição de "príncipe dos demônios" — não necessariamente sinônimo de Satanás, mas o comandante operacional da hierarquia demoníaca. Essa distinção funcional é relevante: Satanás no Novo Testamento frequentemente atua como tentador e acusador (Mt 4:1-11, Ap 12:10), enquanto Beelzebu aparece no contexto específico do controle sobre demônios. A sobreposição existe, mas a função narrativa é distinta. Para o exorcista do primeiro século, invocar o nome do "príncipe dos demônios" era um ato de identificação de autoridade, e acusar alguém de operar sob essa autoridade era a acusação mais grave que se podia fazer.
Interpretação patrística e teologia cristã antiga
A patrística herdou de forma crítica a demonologia judaica do Segundo Templo. Os Pais da Igreja não simplesmente a reproduziram: a integraram numa cristologia e pneumatologia emergentes, respondendo a questões que os textos intertestamentários não haviam colocado. Onde Beelzebu se situa em relação a Satanás? O príncipe dos demônios pode ser identificado com o diabo? A vitória de Cristo sobre Beelzebu nos exorcismos é definitiva ou ainda há combate? Essas perguntas moldaram os comentários patrísticos sobre Mateus 12.
O que os Pais da Igreja disseram sobre Beelzebu
Orígenes (c. 185-254 d.C.), em Contra Celso, discute a acusação de Beelzebu no contexto de sua defesa do cristianismo contra críticos pagãos. Para Orígenes, a cena de Mateus 12 demonstra que Jesus não podia estar operando pelo poder de demônios porque demônios não trabalham contra si mesmos; a lógica de Jesus é, para Orígenes, prova filosófica de sua operação pelo Espírito divino. Tertuliano (c. 155-240 d.C.) menciona Beelzebu em De Spectaculis ao argumentar que espetáculos públicos romanos eram presididos por demônios, entre os quais Beelzebu é citado como figura central da hierarquia demoníaca.
Agostinho (354-430 d.C.), em seus comentários sobre Mateus, desenvolveu a interpretação que conectava Beelzebu diretamente com Satanás. Para Agostinho, "príncipe dos demônios" e "Satanás" eram títulos distintos para a mesma entidade, e a passagem de Mateus 12 era central para compreender tanto a autoridade de Cristo quanto a natureza da blasfêmia contra o Espírito Santo. A posição agostiniana tornou-se dominante no Ocidente: Beelzebu não é um demônio entre outros, mas o nome alternativo para o adversário principal.
Beelzebu na teologia demonológica patrística
W. H. C. Frend, em The Rise of Christianity, documenta que a patrística desenvolveu uma demonologia sistemática em parte como resposta ao ambiente religioso helenístico, onde demônios (daimones) eram entidades intermediárias entre deuses e humanos, não necessariamente malignos. O cristianismo primitivo precisava distinguir seu conceito de demônios malévolos do daimon socrático e das divindades tutelares romanas. Beelzebu, com sua história bíblica clara de oposição ao Deus de Israel, era um exemplo conveniente de demônio inequivocamente maligno.
Conexões entre patrística e literatura intertestamentária
A familiaridade patrística com textos como 1 Enoque e o Testamento de Salomão é verificável. Tertuliano cita 1 Enoque explicitamente. A narrativa dos Vigilantes — anjos caídos cujos descendentes tornaram-se demônios — aparece em vários Pais como etiologia da existência demoníaca, incluindo Justino Mártir e Cipriano. Beelzebu, como figura que o Testamento de Salomão descreve como "primeiro dos anjos caídos", encaixava-se naturalmente nessa narrativa. A continuidade entre a demonologia judaica do Segundo Templo e a demonologia cristã patrística não é acidental: é a mesma tradição intelectual respondendo a questões similares sobre a origem e a natureza do mal.
Implicações teológicas e históricas de Beelzebu hoje
O estudo de Beelzebu tem relevância em pelo menos três áreas distintas para quem trabalha com o texto bíblico: filológica, histórica e exegética. Filologicamente, a questão zebub/zebul permanece tecnicamente aberta, e novas descobertas arqueológicas no Levante continuam produzindo evidência sobre o vocabulário religioso cananeu. Historicamente, Beelzebu é um caso de estudo no processo de demonização de divindades estrangeiras que ocorreu em múltiplas culturas do período axial. Exegeticamente, compreender quem Beelzebu era para um judeu do século I é o pré-requisito para compreender o peso da acusação em Mateus 12 e a resposta de Jesus.
Para o trabalho pastoral contemporâneo, a principal contribuição do estudo de Beelzebu é contextual: ele impede leituras desencarnadas da cena de Mateus 12. A blasfêmia contra o Espírito Santo não foi pronunciada no vazio; foi a resposta de autoridades religiosas específicas a um ministério específico, num contexto demonológico específico que os ouvintes originais reconheciam sem precisar de explicação. Remover Beelzebu desse contexto e transformar a declaração de Jesus em doutrina abstrata sobre um pecado imperdoável deslocado de qualquer cenário histórico é o caminho para a angústia pastoral infundada que essa passagem produziu por séculos.
Para aprofundar o contexto histórico e religioso do período intertestamentário que moldou a demonologia onde Beelzebu se insere, o artigo sobre hermenêutica bíblica desenvolve os princípios de interpretação contextual que tornam esse tipo de análise possível.
Baal-zebub, Belial, Azazel, hasatan: cada nome carrega história que a tradução apaga.
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Quem é Beelzebu no contexto do Segundo Templo?
Beelzebu no Segundo Templo é uma figura demoníaca proeminente derivada da divindade cananeia Baal-zebub, transformada em príncipe dos demônios durante o período pós-exílico. Textos como o Testamento de Salomão o descrevem como "primeiro dos anjos caídos". Os Manuscritos do Mar Morto desenvolvem figura paralela chamada Belial, que pode ser identificada com Beelzebu em algumas tradições.
Como Beelzebu apareceu nas tradições judaicas e cristãs?
Nas tradições judaicas, Beelzebu emergiu da demonização de divindades cananeias após o exílio babilônico, quando o monoteísmo judaico reclassificou os baals de deuses estrangeiros para adversários espirituais. No cristianismo primitivo, aparece nos Evangelhos quando fariseus acusam Jesus de expulsar demônios pelo poder desse demônio, acusação que Jesus usa para ensinar sobre a blasfêmia contra o Espírito Santo.
Qual a relação entre Beelzebu e outros nomes demoníacos na Bíblia?
Beelzebu é chamado "príncipe dos demônios" nos Evangelhos, título também aplicado a Satanás. Jesus os identifica em Mateus 12:26 ("se Satanás expulsa Satanás..."), sugerindo equivalência funcional. Belial em Qumran e 2 Coríntios 6:15, e Azazel em Levítico 16 e 1 Enoque, são figuras paralelas com diferentes histórias textuais mas função narrativa similar de antagonista espiritual principal.
O que significa Baal-zebub no contexto cananeu?
Baal-zebub significa "senhor das moscas" na leitura mais comum do hebraico, possivelmente referindo-se ao controle sobre pragas. A variante Baal-zebul, atestada em textos ugaríticos, significa "senhor exaltado" ou "príncipe". A maioria dos especialistas hoje considera que zebub pode ser uma alteração deliberada de zebul por autores judaicos para ridicularizar a divindade estrangeira, transformando "senhor exaltado" em "senhor das moscas".
Como a patrística interpretou Beelzebu?
Orígenes usou a cena de Mateus 12 como argumento filosófico: demônios não trabalham contra si mesmos, portanto Jesus operava pelo Espírito de Deus. Tertuliano citou Beelzebu em debates sobre a natureza demoníaca dos espetáculos públicos romanos. Agostinho identificou Beelzebu com Satanás e conectou a passagem com a blasfêmia contra o Espírito Santo. Essa posição agostiniana tornou-se dominante no pensamento cristão ocidental.
Conclusão
Baal-zebub percorreu um caminho preciso: de deus oracular filisteu mencionado com desprezo em 2 Reis a príncipe dos demônios invocado pelos fariseus para desacreditar Jesus. Cada estágio desse percurso é historicamente rastreável: a demonização pós-exílica, a sistematização na literatura do Segundo Templo, a aparição nos Evangelhos como antagonista implícito dos exorcismos de Jesus, a interpretação patrística que o identificou com Satanás. Ignorar esse percurso é ler Mateus 12 sem o contexto que seus primeiros leitores trouxeram ao texto.
O detalhe exegético que mais importa para a interpretação pastoral é este: a blasfêmia contra o Espírito Santo não foi declarada por Jesus em abstrato. Foi declarada em resposta a homens específicos que viram exorcismos específicos e os atribuíram deliberadamente a Beelzebu. Quem hoje teme ter cometido esse pecado não está, pela definição que o próprio contexto fornece, na posição dos escribas que desceram de Jerusalém. A angústia em torno do pecado imperdoável é compatível com fé; a rejeição deliberada e consciente da obra do Espírito que os Evangelhos descrevem não é.
Os três artigos deste cluster — blasphemia no grego bíblico, aiónios o que eterno significa e este sobre Beelzebu — fornecem juntos o vocabulário histórico e semântico que torna possível uma leitura de Mateus 12 que não produz medo infundado nem subestima a gravidade do que Jesus descreveu.
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